• José Osterno

119 DIAS EM AMHITAR



119 Dias em Amhitar (Fortaleza: Expressão Gráfica e Editora, 2019) é o título do livro do escritor cearense, Paulo Avelino.


Paulo Avelino nos apresenta uma coletânea de deliciosos pequenos contos, os quais têm em comum surpreendentes personagens, além do local em que as cenas se passam: o país [imaginário?] de Amhitar.


Adepto da literatura fantástica, na linha borgeana, o livro traz escritos que mais parecem imagens.


Com efeito, é só fechar os olhos, para imaginar Zamira Jamshid entrando nua na cidade de Takhiatash, juntamente com outras sete jovens, todas sem nenhuma roupa e montadas em cavalos, sendo que – diz o testemunho entusiasmado de Otabek – “os seios de nenhuma no entanto rivalizavam com a firmeza dos da bela Zamira, que pareciam ignorar o movimento do animal”.


Pode-se, também, quase ler os sonetos (não transcritos na obra) da poetisa Iroshka Maruf, os quais falam “de amores tão belos que é melhor que nem existam, e de almas gêmeas próximas e distantes como em labirinto”.


O livro, de sedutora leitura, nos contempla ainda com trechos de acentuado primor, tais como: (a) “Elmurod se dizia imune a flechas, lanças e sortilégios mas esqueceu as gripes – uma o matou cercado por trezentos e nove cortesãs” – nada mais atual, em tempos de covid-19 (conto ‘Aquele que vencia parado’); e (b) “Não culparei ninguém por uma ilusão que é só minha” (conto ‘A solitária frase’), e também (c) “Outros povos construíram Esfinges. Outros, o Taj Mahal. A primeira obra de engenharia em Amhitar foi uma latrina” (conto ‘A vergonhosa Engenharia’); e ainda (d) “Solitário, desesperado, farei na minha fraqueza o que os fortes não fazem” – que parece invocar as epístolas de São Paulo (conto ‘A inscrição esquecida’).


Muitos outros trechos, de igual brilho literário, poderiam ser aqui invocados. Melhor, no entanto, reservá-los à surpresa da própria leitura do livro.


Já o último conto: “Amhitar diz Adeus” contém trecho que serve de fecho singular à obra e que deixa um quê de saudade ou de quero mais: “Dizem os opositores [eles sempre existem] que Amhitar é delírio. Estão errados [embora não muito]. Nosso país [e seus desertos e suas muralhas e suas montanhas que furam as nuvens] efetivamente se constitui em desafio para a banal [e aparente] realidade das pedras, engarrafamentos e telefones”.


Não tenho, pois, dúvida em recomendar a leitura de “119 dias em Amhitar”, como viagem benfazeja por inebriante universo a se descortinar, notadamente para aqueles que apreciamos boa literatura, seja ela fantástica ou não.

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