• José Osterno

DICOTOMIA CRISTÃ: PECADO E SANTIDADE [1]



Parafraseando Pirandello no limiar da peça “Seis Personagens à Procura de um Autor”, imagino alguém que me perguntasse: “Ei, aonde você vai?”. E eu respondesse: “Vou à missa”. Ao que, de pronto, meu interlocutor replicasse: “Não adianta nada, você vai pecar mesmo, amanhã”.


Primeiro, a perplexidade; em seguida, a reflexão: a afirmação (“Não adianta nada …”) é à evidência absurda.


Tão absurda quanto as que me dissessem: “Você não deve se alimentar, vai sentir fome mesmo, depois”; ou, ainda, “Você não deve tomar banho, vai se sujar mesmo, de novo”; ou, por fim, “Você, doente, não deve ir ao médico, vai adoecer mesmo, outra vez”.


Ninguém – exceto o Filho do Homem – nasce santo; torna-se santo na caminhada da vida, com quedas e reerguimentos, sendo que, ao final, mais permanece de pé.


Antes da santidade, São Paulo não perseguiu e matou cristãos? São Pedro, por medo, não negou Cristo, três vezes? E São Tomé não desacreditou – sem que visse e tocasse – na Ressurreição de Jesus?


Depois, agindo Deus, São Paulo combateu o bom combate; São Pedro tornou-se pedra, em que se ergueu a Igreja; e São Tomé, por ver e tocar, reconheceu a Divindade de Cristo: “Meu Senhor e Meu Deus” (Jo 20,28).


Certa vez”, está escrito, “Jesus estava à mesa em casa de Levi. Muitos cobradores de impostos e pecadores estavam sentados junto com Jesus e seus discípulos, pois eram muitos os que o seguiam. Os escribas, que eram fariseus, viram que ele comia com os pecadores e cobradores de impostos e disseram aos discípulos: ‘Por que ele come e bebe com cobradores de impostos e pecadores?’ Ouvindo isso, Jesus lhes disse; ‘Não são os que têm saúde que precisam de médico, e sim os enfermos. Não vim chamar os justos, mas os pecadores’” (Mc 2, 15-17).


Tempos atrás, alguém me disse: “considerar nossas boas ações, neste mundo, como contributo para nossa salvação, seria desmerecer o sacrifício salvífico de Cristo na cruz”.


Não compartilho dessa “certeza”.


Prefiro a palavra do pároco de minha paróquia que, em homilia, afirmou: “Fomos salvos, sim, pelo Amor de Cristo na cruz. Mas, devemos permanecer salvos”; e “Quem se afasta de Deus” (o mesmo Deus que, na cruz, o salvou), “aproxima-se do mal”.


A salvação, pelo Perdão e Amor de Jesus, representados no sacrifício da cruz, não constitui – acredito – carta branca para vida intencionalmente desregrada e, até mesmo, para se omitir o bem ou se praticar o mal.


São Tiago nos alerta: “Mostra-me a tua fé sem obras, e eu te mostrarei a fé por minhas obras”, e, então, arremata: “Portanto, assim como o corpo sem o espírito está morto, também a fé sem as obras é morta” (Tg 2,18.26).


Caminhar nesta vida, de modo que a fé e a oração nos façam, ao final, alcançar saldo positivo no confronto de boas (maximizando-as) e más (minimizando-as) ações é o caminho.


Caindo – porque humano – e levantando – com a necessária Graça de Deus – continuarei participando da missa, seja para agradecer e louvar; seja para renovar forças “e subir como águia” (Is 40,31); seja para, lágrimas nos olhos, gritar como Bartimeu: “Jesus, filho de Davi, tem piedade de mim!” (Mc 10,47).


[1] “... o único Papa de toda a história que se referiu à Igreja como “santa e pecadora” foi o beato João Paulo II – e fez isso uma única vez. Já Bento XVI, sabendo bem da necessidade de colocar os pingos nos ‘is’, sempre disse “Igreja santa e composta de pecadores”. Então, esta é a expressão mais adequada: ‘Igreja santa e composta de pecadores’”. In www.catolicosnabiblia.com.br/a-igreja-santa-e-pecadora-como-entender-isso; acesso em 16.05.2020.


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