• José Osterno

FRAGMENTOS POÉTICOS DE UM NOBEL SEM NOBEL



A obra de Jorge Luis Borges, poeta, contista e ensaísta argentino, é tão rica que, de um só livro, “Elogio da Sombra”, podem ser retirados fragmentos poéticos de intensa beleza.


Borges, na introdução do referido livro, exercita a modéstia, ao, em poesia sem verso, dizer: “A poesia não é menos misteriosa que os outros elementos do orbe. Tal qual verso feliz não pode envaidecer-nos, porque é dom do Acaso ou do Espírito; só os erros são nossos”.


Degustemos, então, como um bom vinho, a magia poética borgiana:


- “Que importa nossa covardia se há na terra

Um só homem valente,

Que importa a tristeza se houve no tempo

Alguém que se disse feliz,

Que importa minha perdida geração,

Esse vago espelho,

Se teus livros a justificam.

Eu sou os outros. Eu sou todos aqueles

Que teu rigor obstinado resgatou.

Sou os que não conheces e os que salvas”.

Do poema ‘Invocação a Joyce’.


- “O espelho o aguarda.

Alisará o cabelo, ajustará o nó da gravata (sempre foi

Um pouco dândi, como quadra a um jovem poeta)

E tratará de imaginar que o outro, o do cristal, executa

Os atos e que ele, seu duplo, os repete. A mão não lhe

Tremerá quando ocorrer o último. Docilmente,

Magicamente, já terá encostado a arma

Contra a têmpora.

Assim, creio, sucederam as coisas”.

Do poema ‘Maio 20, 1928’.


- “Conheci a memória,

Essa moeda que não é nunca a mesma.

Conheci a esperança e o temor,

Esses dois rostos do futuro incerto”.

Do poema ‘João, I, 14’.


- “Só os deuses podem prometer, porque são imortais

Do poema ‘The Unending Gift’.


- Amanhã virá a bala

E com a bala o olvido;

Disse o sábio Merlim:

Morrer é haver nascido”.

Do poema ‘Milonga de Manuel Flores’.


- “7. Feliz o que não insiste em ter razão, porque ninguém

A tem ou todos a têm.

8. Feliz o que perdoa aos outros e o que se perdoa

A si mesmo.

(...)

11. Bem-aventurados os misericordiosos, porque sua

Felicidade está no exercício da misericórdia e não

Na esperança de um prêmio.

(...)

13. Bem-aventurados os que padecem perseguição por

Causa da justiça, porque lhes importa mais a justiça

Que seu destino humano.

(...)

19. Não odeies a teu inimigo, porque se o fazes, és de

Algum modo seu escravo. Teu ódio nunca será

Melhor que tua paz.

(...)

24. Não exageres o culto da verdade; não há homem

Que ao fim de um dia não tenha mentido com razão

Muitas vezes.

(...)

28. Fazer o bem a teu inimigo pode ser obra de justiça

E não é árduo; amá-lo, tarefa de anjos e não de

Homens.

(...)

31. Pensa que os outros são justos ou o serão, e se não

É assim, não é teu o erro.

(...)

49. Felizes os que guardam na memória palavras de

Virgílio ou de Cristo, porque estas darão luz a seus

Dias.

50. Felizes os amados e os amantes e os que podem

Prescindir do amor.

51. Felizes os felizes

Do poema ‘Fragmentos de um evangelho apócrifo’.


- “Que outros se jactem das páginas que escreveram;

A mim me orgulham as que tenho lido”.

Do poema ‘Um leitor’.


Eis Borges, o Poeta.


Aquele que povoou o mundo com poesia veraz.


Aquele dos labirintos e espadas, dos espelhos e facas.

Aquele de quem, induvidosamente, se pode dizer: Um autêntico Nobel, sem Nobel.

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